Nuclear Boum!
1-Assim titulei uma conferência na U.T.A.D., porque a nuclear está ligada desde o seu início à bomba, e nunca deixou de estar a ela ligada. Mesmo quando os seus vendilhões o procuravam disfarçar.
O nuclear americano resulta da bomba e Eisenhower nunca conseguiu convencer ninguém com os seus “átomos pela paz”. Só Hiroxima e Nagasáqui e os outros locais das ilhas do Pacífico, locais das suas bombas “experimentais”, que se seguiram são responsáveis por centenas de milhar de mortos.
E Estaline, matou, como seu hábito, muitos, antes de ter a bomba, e depois continuou a matar seja em enorme acidente nuclear escamoteado em Kyshtym, nos anos 50 ou em Chernobyl, nos 80, esse deu também cabo da perestroika, e foi deixando resíduos das bombas experimentais na Sibéria, para sempre.
Já a nuclear francesa começou com muitas bombas no deserto do Sahara causando um número nunca determinado de mortos e até um português, Fernando Pereira, na Austrália, resultante da tal “force de frappe”, pela “grandeur de la France”, resultante do afundamento do Rainbow Warrior da Grenpeace. Daí passou para as centrais, que também mataram vários manifestantes e hoje só servem para alimentar a bomba e a ilusão.
E as nucleares de Inglaterra, de Israel, da Índia ou do Paquistão, só se justificam pela bomba, ao serviço de Sua Majestade ou pelas ambições imperiais nazionalistas, sionistas, índias ou paquistanês, todas do outro lado das nucleares ditas civis.
As recentes guerras, na Ucrânia e no Irão, e neste último caso nem é preciso fazer um boneco, demonstraram absolutamente que não há nuclear civil e nuclear militar, estão totalmente ligados, são as duas faces da mesma moeda.
E até aqui ao lado o ditador Franco, para ter uma bomba nuclear, comprou uma central aos franceses que haveria de explodir (VandellosI) causando muito, muito sofrimento e mortos indeterminados
Não há, pois, nuclear que não seja com fins militares.
2- Só por aqui a discussão já nos levaria longe, mas entremos na matéria. Claro que o facto da nuclear ter essa origem e finalidade altera desde logo a estrutura de custos, para debaixo do tapete, ou seja para as despesas do orçamento eléctrico vão logo os custos de toda a parte militar. Na central a fissão do urânio aquece a água (como numa chaleira) que vai levar a turbina a girar e em ciclo alternado produzir electricidade, a electricidade desde logo é a mais cara do mundo, mas produz também subprodutos que podem ser utilizados para a bomba, e esses não entram nas despesas da dita. E duram para sempre, seja na bomba seja nos ditos resíduos radioactivos.
Não vale a pena entrar no tema dos custos da construção e do processo de produção. Venho, todavia, referir que as poucas, escassas centrais nucleares construídas este século (talvez meia dúzia) custaram 3 a 5 vezes mais do que o custo originalmente estimado, e demoraram em vez dos 15 anos previstos para o procedimento de construção mais de vinte e até quase trinta anos.
Estamos falados sobre os custos e a suposta alternativa para lutar contra as alterações climáticas. Daqui a trinta anos estaremos fritos e não haverá sequer água para refrigerar os reactores e fazer o tal chá (metade do parque nuclear francês pára todos os anos, vários meses, por…falta de água).
Mas não posso deixar o tema sem mencionar outros custos que não podem ser metidos para debaixo do tapete, como os arautos desta treta fazem. Os custos do desmantelamento das centrais e, e, sobretudo os custos da gestão, ou melhor ingestão dos resíduos, fraca, média e altamente radioactivos. Pois esses custos, custos para serem mantidos por, imaginem, milhares, muitos milhares de anos não estão contabilizados, por ora. É fácil fazer e desquitar-se dessas contas. São muitos milhões....
3-Da bomba passámos para a economia e ora vamos para o ambiente.
As nucleares também esquecem, no armário dos fundos, os enormes custos ambientais e sociais do início do seu processo, a mineração. Enormes áreas onde foi minerado o urânio, e também cá em Portugal, estão hoje, e para sempre, interditas por contaminadas radioactivamente. E as populações da zona, onde se minerou ou minera, e sobretudo os trabalhadores (ou ex-mineiros) e famílias têm/devêm ser monitorados permanentemente. Até o pastoreio de gado deve ser restrito nalgumas áreas, e claro nenhum consumo primário, da zona, por via do cúmulo radioactivo.
Mas também as áreas no entorno das centrais devem ser meticulosamente vigiadas (e quem pensam que paga essa?) e até pela força aérea, mas drones são sempre imprevisíveis....
As centrais, mesmo no seu funcionamento normal, dito normal, emitem radioactividade para o exterior, pelo ar e pela água, sendo que os resíduos sólidos são lixos que temos que vigiar para sempre, sendo os custos ambientais e sociais indeterminados.
Já em caso de incidentes ou acidentes, e só em Almaraz, publicámos (ADENEX) um livro com esses, ano por ano desde o seu início de funcionamento: “Amanecer Sin Almaraz” são 180 páginas com as suas descrições e alguns até entraram no registo de acidentes graves. Pois em caso de acidente grave como o de Vandellos I, de Harrisburgo, de Chernobyl, ou Fukushima nem preciso dizer nada. Em Chernobyl registos mencionam mais de 100.000 (cem mil!) mortos, embora, ridiculamente a Agência Internacional Nuclear só conta cerca de uma centena, os que morreram logo in loco, os outros que se amanhem.
4-Passamos ao social, ao desemprego provocado pela nuclear, pois é a nuclear não cria emprego, isso é outra ilusão. A nuclear provoca desemprego, ao alienar as pessoas, as populações dos seus locais de vida e actividade produtivas, primárias ou mesmo secundários, pela lógica do perigo e pela concentração da produção que tem que compaginar com distribuição centralizadora. E dado que vivemos em tempos de cada vez mais robótica e as insalubridades da central a isso conduz, o número de empregos desta que já é irrisório ainda diminui mais, pese algum emprego em sazonalidade (para reparações e manutenções) e de mão de obra imigrante para a construção, certo prolongada, se não for abaixo, entretantos.
Mais emprego é gerado por lógicas descentralizadas de produção energética que mantém ainda por cima as produtividades locais.
Certo que as nucleares aumentam, talvez, o emprego médico e psiquiátrico, assim como as forças de segurança. E dos “croque-mort”, agora ou depois.
5-É também no social que referimos a situação energética. Os vendilhões da nuclear são os maiores Pinóquios que conheço, têm narizes, muito, muito grandes. Recordo nos anos 80 quando diziam que se Portugal não tivesse nucleares até 2000 (e nos planos energéticos da época chegavam a mencionar 27, vinte sete centrais!) ficaria às escuras (teriam é certo que encontrar sítio, outra população nesse, e construir à velocidade da luz...) pois fecharam a matraca, as renováveis, a eficiência e; é certo sem poupanças e economias de energia significativas; sem sequer termos alterado os paradigmas económicos e sociais como sempre defendemos; chegam e sobram, em Portugal e no mundo, onde só cerca de 9% da electricidade, ou menos de 2% da energia é de origem nuclear.
A nuclear boum. Morreu e não há ressurreição possível, mesmo com os novos paradigmas super consumidores de energia como são as bases de dados.
A nuclear continua a ser uma tecnologia militar, insegura e imprevisível, muito, muito, muito cara e incapaz de responder aos novos desafios da energia e da sociedade.
6-Finalmente temos que referir a política, a hegemonia, a obsolescência e a entropia.
A nuclear não tem ponta por onde se pegue, mas tem muito, muito dinheiro, como todos os empreendimentos parasitas. E domina toda, toda a comunicação social, por exemplo uma das cadeias de televisão nacional é propriedade da maior empresa nuclear do mundo e as outras são de empresas de grande consumo, de hipermercados e tecnologias passadas, da obsolescência, que servem os interesses da hegemonia (articulação dos sectores partidários com a comunicação social que estruturam um poder inamovível, até...).
Hoje o poder político assenta na entropia, no extractivismo, no intensivismo, no produtivismo, todos eles moldados pela obsolescência de massas, pelo controle dos espíritos pelas televisões ou redes e mentiras e manipulações. Todos os partidos vivem debaixo dessa ilusão, até, com mágoa o refiro, os chamados verdes defendem lógicas de continuidade deste caminho que não conduz a lado nenhum.
7-Notas finais de apoio:
a) Sobre a nuclear: Alain Touraine, Amory Lovins, Bernard Laplonche, Cornelius Castoriadis, Walter Patterson, estes autores são grandes especialistas de todo o ciclo da nuclear, todos eles autores de obras de referência, que podem ser encontradas em boas livrarias ou em linha. Os que são mencionados em seguida estão nas mesmas.
b) Sobre a Hegemonia: Ortega y Gasset, Noam Chomsky, Herbert Marcuse, António Gramsci, Hannah Arendt, teorizam sobre a lógica da produção do discurso/poder, o como e porquê das manipulações e das estratégias para controlar a massa, as massas.
c) Sobre a Obsolescência: Ivan Iitch, Jacques Ellul, Bernard Charbonneau, Gunther Anders, Vandana Shiva estes são teóricos de outra lógica de crescimento o da consciência e do não crescimento, assim como de outros paradigmas societais que rompem com a lógica do produtivismo sem sentido e defendem o poder da pura vida, o poder de viver.
d) Sobre a entropia: André Gorz, Joan Martinez Alier, Georgescu-Rogen, estes e poderia acrescentar muitos outros dissecam a economia das nossas sociedades, propõem outra análise da economia, a bioeconomia e integram nesta a entropia, propõem outros tipos de articulação produtiva, e ligações em rede dos movimentos sociais que enfrentam a hidra que nos vai ameaçando.
Aqui seria de referir os movimentos sociais que defendem energias suaves, agricultura orgânica ou biológica, poupança e recuperação de recursos, defesa da biodiversidade e das paisagens, e outros conceitos de vida e de relações, novos paradigmas de pensamento e acção.
Todos contra a mentira da nuclear, boum, boum, boum.
António Eloy
Coordenador do Observatório Ibérico de Energia:
https://obseribericoenergia.pt/
Labels: Boum, nuclear, Observatório Ibérico Energia
Pois enquanto o tal Isaltino papava um dos seus chorudos, no preço e no conteúdo, almoço, ou almoçarada (que eu pago!) alguns porcos dos seus munícipes criaram esta esterqueira:
claro que ele não é responsável deles, esterqueiros, badalhocos, mesmo porcos que deixaram este lixo na via pública, e que deveriam ser responsabilizados, para alguma coisa há-de servir a polícia municipal.Mas acho incacreditável que o almoço não lhe seja indigesto. Ele também tem culpa.
É o único município onde vejo isto, ou parecido todos, todos os dias.
Se disser que o melhor desta revista é a capa, boneco de Leonardo!:
está tudo, tudo dito. Artigos em geral pobres, nem a passo....Labels: Cavalo
Hoje fui ver:
https://indielisboa.com/en/film/para-vivir-the-implacable-time-of-pablo-milanes/
uma excelente autobiografia, em colaboração com o filho, do grande cantautor cubano muito ignorado por estas terras.
Labels: Indie, Pablo Milanés, World Music
Sou, também, um plebeu do Jazz....
este foi hoje, no Indie... um dos grandes nomes desse.Labels: Black Power, jazz, Sun Ra
Não tenho muitas ilusões com o Japão, mas gosto muito do cinema japonês e sou perdido pelos Haikus, como sabem, de muitos, inúmeros autores, assim como tenho o espírito no zen. Lamento que este livro Olhar o Japão pelos Livros, os ignore, quase totalmente, àparte uma referência esconsa num dos capítulos.
O livro tem textos simpáticos e até inovadores, desde logo o da Madalena Eloy, e outros nem tanto pelo menos para mim, que nem leio os escritos em acordês, mas é um trabalho e organização de referência do Eduardo.
Li, também, en passant, e tenho que dizer:Na floresta
Ouvimos o voo da águia
Chove
Sou um apreciador plebeu de vinhos.
Há os que gosto e os que não gosto. Desde logo não gosto da invasão de Syrah que, sobretudo no Alentejo está a destruir o gosto do vinho, uniformizar palatos e a tornar o vinho efeminado e bom para "estrangeiros" que não sabem reconhecer vinhos. É a minha opinião de plebeu. Gosto das nossas castas tradicionais e menos das francesas mais redondas, todas, além do tal mencionado que é uma autêntica droga. Mesmo quando só misturadas.
Também não gosto dos brancos frutados e por isso ontem no casamento da Matilde e do Henrique muito apreciei este, excelente:
de resto sou um plebeu, que me encontro com direito de opinião. Sobre o que como e o que bebo.Labels: Quinta da Boa Esperança, vinho