Uma descoberta:
um "falso" policial, de facto uma análise socio-antropológica de uma terra "ficcionada" no Ribatejo, em linha com o neo-realismo e com alguns laivos de romance policial. Lembrei-me do Ricos e Pobres de Cutileiro aqui já comentado, claro com registo completamente diferente. Personagens bem caracterizados, a pulhagem que dominava sob o mando do facho, e as lutas sociais em fundo, no limite da censura, ou não.
Labels: neo-realismo, Policial
“Onde é dito que há uma verdade nua (e crua) que não convence ninguém e/ou verdades "alternativas" (falsas) que querem parecer mais verdades que o são"
Georges Simenon
1- Vamos começar pelo livro em foto, de um querido amigo e grande contra-bandista e também, é certo que nas horas vagas, bandoleiro. António Rodriguez (Chamizo)
O contrabandista é o que está contra o bando, a lei, a fronteira. E a raia é uma fronteira que é, como quase sempre, uma ilusão. Dos dois lados da raia há a mesma gente, dos dois lados as culturas e produções são similares e nem, nem a língua nos afasta, ao longo da raia temos inúmeros casos de dialectos, de falas, de expressões etno-linguísticas específicas, além do mirandês que é uma língua vertebrada, herança do galaico-leonês, com introduções locais.
Em livro já escrevi sobre as origens do que se chama contrabando que é de facto uma simples fuga aos impostos e taxas, e só é relevante a partir do século XVIII, que é também quando se define a fronteira, que na zona de Barrancos só já com o Estado Novo fica concluída. São as terra de Contenda.
Entretanto por todo o interior da península do Minho a Aragão havia os bandoleiros (que rouba o bando), verdadeiros Robin dos Bosques que roubavam aos ricos e tinham o apoio ou pelo menos a simpatia dos pobres.
O Remexido, o Zé do Telhado, e tantos outros ou o Diego Corrientes e tantos, tantos outros foram verdadeiros heróis.
Bandoleiros e Contrabandistas é um livro que faz uma busca meticulosa de eventos na zona raiana do Alentejo e nos conta, por entre os eventos, muitas estórias enquadradas social e politicamente. Merece relevo a do grande poeta, muito desconhecido entre nós, Miguel Hérnandez, que em Portugal começou a morrer e que o franquismo liquidou.
Um livro delicioso!
2- Ricos e Pobres no Alentejo, de José Cutileiro. Infelizmente há muito fora do mercado e que merecia reedição. É a tese de doutoramento, julgo que de 1971, escrita originalmente em inglês e que alfarrabiei na edição portuguesa de 1977, com um posfácio de alta qualidade. O trabalho de campo em registo socio-antropológico teve enfoque em Monsaraz e analisa exaustivamente a estrutura social, os hábitos, a organização dos poderes e dá-nos um retracto espectacular das vivências nesta zona durante o fascismo, seja as lógicas produtivas e a miséria em que a maioria da população vivia. Um livro que antecipa outros tempos....
3- Proto, How One Ancient Language Went Global, de Laura Spinney . É um livro desaconselhado a todos os nacionalistas, que aliás quase não sabem ler (o livro que li no original está traduzido, recentemente editado) e que se o lessem deixariam de o ser. A nossa origem é quase “bengali” ou melhor a dispersão é a partir de uma área vasta que vai da zona hoje Arménia ou Uzbequistão. Todos vimos daí, a língua matriz e os registos de ADN não enganam. Este é um livro que nos organiza em lógica de expansão e construção das línguas como factor de civilização. Claro que os nacionalistas não sabem o que isso é. A língua é uma construção cultural que se relaciona com as lógicas produtivas e familiares, e que neste livro nos é explicada nos processos das suas alterações.
Uma obra de grande fôlego, estive uma semana a mastiga-la, e encontrou-me com o passamento de Edgar Morin, ao qual não posso deixar de registar a minha dívida intelectual, que começou, curiosamente com um livro nesta linha: Le Paradigme Perdu: La Nature Humaine, que nos leva ao processo de evolução da linhagem do Sapiens. Há tradução em português.
4- Hijos del Carbón, de Noemí Sabugal, é o último livro que hoje recomendo. Esqueçam o mundial da treta, passeiem, leiam, conversem, saíam das redes. E esqueçam também os livros “basura”, procurem matéria que reforce o pensamento e o conhecimento que o faz. Este é um livro que deveria ser obrigatório ora que, por todo o lado, somos ameaçados com projectos de mineração, e de coisas piores, muito piores até que o carvão, que segundo este livro provocou, atenção mortos directos!, cerca de 10.000 mortos em Espanha. Mas nessa contabilidade não entram (as empresas são espertinholas) os milhares que morreram da doença do carvão. O livro faz uma viagem (o comprei na excelente Palavra do Viajante, em Lisboa!) por todas as zonas de minas de carvão em Espanha. Também uma análise envolvida, a autora é neta de mineiros, da qual concluímos que o slogan Mina, Doença, Morte deve ser erguido bem alto. É que não há mineração inócua. Como escrevi e tenho desenvolvido em conferências em associações e universidades, temos que mudar a lógica dos actuais sistemas baseados no crescimento dos capitais financeiros e especulativos, temos que defender a suficiência e a sobriedade.
A única mineração onde se deve apostar é a da recuperação e reciclagem dos materiais usados, e claro a sua reintegração no sistema. Reduzir e acabar com a thanatia cracia é, deve ser desiderato. É possível. É possível.
Por razões de espaço saíu com um pequeno corte na Gazeta da Beira!
Labels: Bandoleiros e Contrabandistas, Chamizo, Gazeta da Beira, Livros
Acabou já hoje, uma exibição de primeira de Daniel Casares e do seu grupo e ainda de Dulce Pontes no Casino do Estoril:
e aqui:Labels: Daniel Casares, Flamengo
Em linha com o que penso sobre a judicatura e a manipulação que os juízes fazem, e que ainda recentemente verifiquei na pele, os interesses que lhes estão por traz e a sua pesporrência e autoritarismo, no nosso caso, como no italiano, herdeiros da longa noite do fascismo e os seus hábitos de total prepotência.
Ignorar a realidade, sabe-se lá por onde lhes passa o envelope, real ou figurado, e nalguns casos (o caso Garzon é paradigmático) por desejos de poder e protagonismo. Tributários da pesporrência.
Este livrinho, que me faz lembrar outros em Itália, seja o caso Toni Negri seja o caso de Enzo Tortora:
um grande historiador que faz um trabalho de minúcia para provar o mencionado descalabro do sistema judicial.
E aqui, sobre o autor:
https://sinpermiso.info/textos/carlo-ginzburg-historiador-taumaturgo
Labels: Carlo Ginzburg, Judicatura, Justiça
Na sequência da apresentação do último livro de João Freire "RESTOLHOS", excelentes intervenções, embora a minha deficiência auditiva não me tenha permitido seguir a de um dos apresentadores que falava muito baixo, li este livro, este de um provocador.
Não consegui identificar o autor, mas é um manipulador, usa frases descontextualizadas e eventos sem referência e tudo numa lógica que não existe, ou poderá existir na sua cabeça, e claro de muitos outros e até muitos ditos não violentos.
Esclareçamos: a não violência não é um dogma, não é uma religião, não é a verdade revelada, como o autor pretende, e até se socorre de momentos descontextualizando-os.
Mas não consegue desenvolver uma crítica séria e não propõe nenhuma alternativa. E não se atreve sequer a considerar a não violência política como um meio, um procedimento, um caminho de acção.
Não sou um adepto de Gandhi, não tenho nenhum santo no altar, mas reconheço-lhe como a outros ideias brilhantes e acções enquadradas nessas que deram resultados. Ora ir buscar epifenómenos para denegrir este ou outros referentes, sim referentes, da não violência é o que este autor faz, mal, muito mal.
como comentámos vivemos cada vez tempos mais díficeis, o rolo compressor da manipulação e da mentira, vinculada pela comunicação social e pelo jornalista " qu como nos diz o autor (que nem sempre mente!) "tende a ter um discurso politicamente correcto, sensato, fechado à compreensão de qualquer manifestação de conflito que saia dos parâmetros de uma visão do mundo liberal e conciliadora" Há que dizer que julgo que o autor é jornalista, sabe do que fala, e dou-lhe razão não o sendo.Labels: Desobediência civil e Não violência, Livros, Não Violência
Ainda em "maré" de rios, e quase a concluir o livro anterior, sem alterar a minha apreciação, embora reconheça o trabalho notável, recebo hoje e já li uma boa parte deste excelente:
que seria um complemento adequado para os 7 rios da posta anterior.
José Manuel Naredo é um economista de referência, em linha com Georgescu-Rögen e a bioeconomia, integrando os valores como deve.
Um livrinho delicioso.
P.S.
E curiosa a informação que em 1990 um litro de água mineral tinha um custo (aos preços actuais de 20 centimos) Não percebo porque não actualizaram os custos aos nossos dias.
Labels: água, Bioeconomia, Naredo, Rios
Um livro que mistura tudo o que faz os rios:
muita estória ou mesmo história, território, populações em movimento, e história são conflitos, religião, territórios em evolução.
Um livro rico, embora com poucas, menções às destruições ambientais, que chegam a parecer um pormenor, quando são a base e a vida dos rios.