insignificante
Tuesday, April 14, 2026
 

 Hoje lembrei-me de cafés e do muito que tenho escrito neles, sobre eles. Até pensei escrever um livro sobre café! E os sonhos desse.

Em busca pelo computador (não encontro o livro onde publiquei este!) deparo-me com este, que aqui fica para memória futura:

Eram  cerca das 6 da tarde.

Eram cerca das 6 da tarde. E parece-me que foi ontem. O meu avô ia sair. Pegou em mim, puto que devia ter 4 ou 5 anos, e disse-me: António, vamos até ao café.

Uau, o café, espaço sagrado dos homens que iam para aí esperar, esperar nunca consegui descobrir o quê. Era o Monumental ou ao lado, já não me lembro qual, o velho Monte Carlo, enormes, povoados de homens de chapéu que, ás raras senhoras que entravam faziam o beija mão. Eu gostava era da porta giratória, enquanto o meu avô engraxava os sapatos, lia o jornal alugado e tomava o café a dois tostões. No MonteCarlo ia-se ao barbeiro também e esperava-se que o tempo tinha tempo de passear ao pé da, então, rotunda vicejante onde as lavadeiras enchiam o ar de cheiros que  se juntavam aos dos canteiros de flores sempre tratados.

Hoje o tempo não mudou, diz-se que ele fica onde está, mas o espaço está diferente. O Monumental desapareceu levado talvez por mau olhado que, apesar de um anjo vigiar, não pode evitar e o velho MonteCarlo foi definhando a cada nova remodelação até se tornar um hídrido de onde nem o Sr. Medalha  pode esconjurar a desgraça que o fantasma do vizinho para lá passou.

Mas eu cresci e as minhas memórias viajaram até ao "1500" que me recordo oscilante entre conspirações, sussurros e jogos de enciclopédia em que, nos dias em que um cinema chamado Jardim não anunciava duas prometedoras reprises, gastávamos a cabulice.

Lisboa com o passar da vida acabou com esse tempo que foi sendo transformado em snack, quando não em banco sem prego, nem estopa. E as memórias só se podem recuperar com paixão, com muita paixão.

Do Pessoa não se pode sequer dizer que tenha sobrado o Martinho pois debaixo da arcada só o cheiro do absinto imaginário é que nos transporta a outro mundo, de heterónimos e poesias, prodigioso desdobrando-se em várias realidades.

Dos cafés resta-nos a memória do lugar onde pudemos conservar todo o passado no tempo da escrita que desliza ao longo da tarde, porque é sempre tarde quando os corpos se inspiram e do seio deles saem as palavras com que também pintamos a realidade que inventamos.

Neles, em muitos deles, escrevi os primeiros artigos para os jornais e um livro de poesia que a voragem de um período devorou. Artigos escritos  também febrilmente para impedir a realidade de desaparecer com o tempo que a ia ocupando de todas as cores. Agitação, ruídos, revolução marcaram  esse tempo nos sonhos e no papel onde amareleceu a minha juventude. Os cafés, então, nesse tempo sem tempo, pareciam sempre abertos e havia sempre alguém que entrava com as notícias mais inesperadas, anunciando os acontecimentos mais imprevistos.

Os cafés tinham o ritmo dessa inovação que era a tosta mista que nos comia a correr ao ritmo da vida que era transformada de horas em segundos que se esvaiam em veias de agitação.

Mas o melhor do tempo é que não passa e somos sempre donos dele. Assim posso agora, a meio da história voltar ao Monumental, depois de uma clássica das 18.30... No ar com a ardência dos nossos sonhos, a bufaria rondava bem visível as nossas implausíveis discussões entre o neo-realismo  reformista ou o esteticismo revolucionário. Havia um tempo e um modo também para ajuizarmos da praxis. Havia palavras. E havia por cima disso a paixão que era o Pierrot, que se chamava na verdade Ferdinand e explodia no final de um filme em que os cortes só açulavam mais a malta. O Godard foi na altura o encontro de todos os sentidos e a Ana a paixão por onde o sonho navegou até a mesma se tornar real.

Lembro, depois, também um Outono já as luzes se iam apagando sobre um regime que só vivia do seu cansaço, uma manifestação, a correr pedras a choverem em protesto contra a aliança entre o capital financeiro e a guerra colonial gritos, tropeções, lembro também um café a aparecer acolhedor e um casaco já sem pedras nos bolsos a sentar-se calmamente como se não fora nada.

Recordo todo o esquecimento e lembro-me das memórias que do fundo de outros tempos guardo na certeza de um olhar.

Noutros tempos o racional cedeu ao emotivo e a emoção esvaiu-se pela paixão. Os pequeno almoços que na Tentadora se iniciavam pela hora em que o café da manhã se confundia com a bica digestiva ou as palavras, cartas que aí escrevi e rasguei quando tive que esperar que o passado descobrisse o seu presente.

Convertida ao néon e aos imperativos do solo escorregadio até a Tentadora tiraram do passado onde podia descobrir memórias como a caneta em tinteiro procura a escrita.

Hoje ainda com a alma no limbo esperando pela sua gémea vou imaginando outros cafés. Cafés por onde nos perdemos na expectativa de ver o tempo passar. Mas só vemos longos silêncios, ás vezes aconchegados num olhar cheio de muitos sentidos, silêncios a que se mistura um som de fundo feito de muitos ruídos.

Viajamos, no espaço, e estou no Café Sarah Bernard a olhar o horizonte do Chatelêt e a vogar no tempo perdido à espera de algo que mude ou modifique, ao lado, a vida sorri franca e descontraída e um aceno trás um convite que se vai esgotar em desencontros muitos. E encontro-me no San Augustin e sou galego na conversa onde se descobre o patrão asturiano e amistoso desterrado num país que fala espanhol como se fosse italiano. Um cimarrão substitui o café. Como no El Kaled em Tabarka o chá de hortelã, entre fumos, enquanto tentava a todo o custo escrever por entre a solidão que só a  minha gosma nocturna acompanhava. Não havia  então nenhuma espécie de aspirina, por lá feitas artesanais, que me aliviasse. Aliviado fiquei quando na Tailândia numa zona, que inconscientemente ignorava, encravado entre a guerrilha vermelha e traficantes de droga consegui sair do café local que era uma mistura de famílias e lupanar.  Em boa harmonia.

Em todos os cafés por onde passamos deixamos um pouco da vida num tempo que por lá fica.

Talvez devêssemos descobrir o que há por detrás dele, desse tempo, que partida nos vai pregar na volta da esquina, se é que não sendo senão um ponto de partida não o pudermos alcançar.

Com o desaparecimento dos cafés para onde irão os personagens que os habitam? Para onde irá o tempo que ficou neles? No papel nem todas as memórias do mundo cabem.

Eram cerca das 6 da tarde. E parece-me que foi ontem. O meu avô ia sair. Pegou em mim, puto que devia ter 4 ou 5 anos, e disse-me: António, vamos até ao café.

Hoje o que fica são as memórias de um, de todos os cafés onde passámos um bocadinho da nossa vida.

Cafés que já lá não estão, porque o tempo também se deve ter ido embora para sítio desconhecido, enquanto a realidade com todo o seu frenesim passa por ele a grande velocidade.

Sobra-nos também dos cafés o passado, algum passado que guardamos na caixinha de recordações e que no presente destapamos com saudades.

 Sobra-nos também dos cafés o presente que não desesperamos de recuperar e inventar com sonhos a ligarem o passado ao futuro. E fica uma história que vamos certamente recuperar, com muito sentimento e com toda a ternura no futuro. Que é um amor ou uma paixão que nem o tempo pode roubar do nosso sentir.

Os cafés são um bocadinho da nossa alma. E essa não a vendemos ao diabo. A maior parte das vezes já a deixámos enleadas por um olhar, uma voz, um cheiro. Certamente numa noite onde a saudade se uniu ao presente.

 

Em Lisboa, num tempo que já não vive senão na memória do tempo que se perdeu, com palavras roubadas do dicionário onde todas as palavras já foram escritas e sem outro desejo que o de percorrer uma memória com desejos partilhados.

 Muito mais haveria, hoje, para dizer, contar. Outros tempos, outras palavras seguirão....

 

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 Ontem vi um filme de excelência:

https://youtu.be/ytFW7HxePCE?si=4UopOTHFwQNriR4_ 

Testa o Croce, no festival do cinema italiano. Um filme que é uma memória de muitos westerns e não só spaguetti. Entre tantos  outros o Sergio Leone  (América) o Sam Peckinpah (Bring me the Head of Alfredo Garcia) tantos de vários Clint e os sons de Morricone, subliminares.

Um festival onde vi, também,  outro de excelência, sobre D' Annunzio ( Fiume o Morte), um filme construido de forma completamente original e um bom documentário entremeada. Também vi um bom filme sobre a infância e a velhice, delicioso (Gioa Mia).

Um festival onde deixei muitos filmes por ver, mas que mostra que o cinema ainda existe e não são só as porcarias que enchem os nossos écrans. E tenho que dizer salas cheias ou pelo menos meias, ao contrario das outras americanadas. 

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Monday, April 13, 2026
 

 Hoje, sem comentários:

isto foi divulgado pelo escória, ele mesmo!
 

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Sunday, April 12, 2026
 

 Ontem passei-me. Tenho andado a mil e não aguento ignorâncias e malvadezas. É certo que era um jantar amistoso. Mas saí logo depois das entradas. Um dos convivas, que estimo, introduziu uma afirmação chegana, propaganda, manipulação e mentira grosseira. Exaltei-me e saí.

Afirmar, como consta da propaganda desse que eles representam um terço da representação é um logro, uma mentira e obviamente manipulação dos espíritos.

Vamos ver, a votação do Ventura nas presidenciais não é representação, não representa nada. É uma votação de cara ou coroa o que perde não tem nada, recordem Freitas do Amaral que com 49% ficou pobre, não representa nada.

Ora eles representam julgo que 18%, menos que o P.S., o que é menos de um quinto. Mas de facto, em relação ao total eleitoral é menos de um décimo (9,1%). E se tivermos em conta a população nacional é  6%.

É isso o que o tal representa. Bando de pedófilos, ladrões e mafiosos, como se tem visto. E mentirosos, muito mentirosos. 

Irritei-me, já pedi desculpas. Mas a culpa é dessa mafiagem que nos atormenta os espíritos. Deveria ter resistido. 


 

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Saturday, April 11, 2026
 

 Um fimde com contos, da minha amiga L.C.G. que muito aprecio:

de "gastros" e de filmes italianos, dois em agenda para amanhã.

Aqui voltarei para dizer desses...
 

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Friday, April 10, 2026
 

 Um livro de estórias, uma centena, mais ou menos divertidas, mais ou menos interessantes:

desde logo começa pelo pescador....
 

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 Este é o trabalho da hegemonia que controla quase todos os meios de comunicação social:


 o boneco é do The Guardian, talvez um dos poucos que ainda resiste à ditadura dos capitalistas/canibais, que controlam quase todos os média e os seus discursos, sejam cadeias de supermercados, frotas de barcos, ou patrões das empresas de redes sociais. 

Deveria assinar mas pagaria metade aos bancos, como já me tem acontecido, esse é outro dos truques dos tais canibais.

Aqui trago uma notícia que resiste:

https://www.theguardian.com/environment/2026/apr/10/country-diary-a-sun-warmed-day-has-the-bees-feeling-hot 

e nós com ela. 

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 O Zen é e não é. Neste simpático livrinho, temos e não temos o pensamento de Dōgen:


 "A lua reflectida

Numa mente límpida

Como águas calmas;

Até as ondas a quebrar,

Reflectem a sua luz."

É claro que " o caminho das palavras/ pode demonstrá-lo mas não esgotá-lo. " 

Muito para pensar,muito para esquecer. O pensamento é memória e o seu contrário.

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Thursday, April 09, 2026
 

 Hoje fui almoçar com uma velha amiga ao Centro Cultural de Cabo Verde, ao Rato, em Lisboa, ao restaurante ByMilocas:

depois de um almoço genial, barriga de atum e cachupa refogada, que contei à minha amiga como se faz e recordei tantas no Lisboa, no Mindelo, um bom vinho a acompanhar (mas não percebi porque raio vinhos nacionais tem nomes caboverdianos!), e do excelente atendimento da Ineida e da Ailine (perdoem se grafo mal!) tive uma divertida conversa com a Milocas, falámos de conhecimentos comuns, do Bana, do Alcides, do José Agualusa e também do Tito Paris. Contou-me a sua tristeza com a Celina e falámos do mercado da Assomada e da Brava.

Há sempre estórias, contei à Carmo, a do chefe da polícia da Brava, e tantas outras, os passeios do Aristides pela Prainha, e a do Bana bengaleiro.

É um local de referência que irei frequentar!
 

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Wednesday, April 08, 2026
 

 Um livro útil, para saber falar, contar, esgrimir palavras, em público: 

em nome da oralidade, dos discursos, das estórias. 

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 É isto que o Chega quer de volta:

um chefe de governo a oscular a mão de um padreca e esse a babar-se. E os outros mastodontes a invejá-los.

Isto, o fascismo, pletórico, o que o Chega, não tenhamos a mínima, quer de volta. 

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civetta.buho@gmail.com

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