Sejamos todos vermes
“A mais pequena minhoca virar-se-à quando pisada” de um verso de W. Shakespeare citado num dos poemas de Voltairine de Cleyre (V.C).
O deveríamos ser, mas como nos diz também “estou persuadida que a multitude da humanidade prefere os bens materiais à liberdade”, portanto...
1-Mas vamos ao tema que esta notável nos traz no livro “ Écrits d’une Insoumise” que é uma excelente síntese do seu pensamento, que poder ser consultado mais exaustivamente aqui:
http://dwardmac.pitzer.edu/Anarchist_Archives/bright/cleyre/Cleyrearchive.html
Este livro “Escritos de uma Insubmissa” começa com uma excelente introdução que além de nos contar a sua vida, nos mostra a evolução do seu pensamento, articulado com o seu social. Ela é uma feminista radical, num tempo em que a disforia de género ainda não se manifestava a dilacerar o movimento feminista, tema para uma grande discussão, que também deveria entrar na lógica do anarquismo.
“ Porque não correis quando estais com correntes nos pés? Porque não gritais quando estais amordaçadas? Porque não gastais milhares de doláres quando não tendes um cêntimo na algibeira? (...) nada me irrita tanto como a inacreditável estupidez com a qual o verdadeiro insensível, e de imbecilidade insondável, pergunta: porque razão as mulheres não se revoltam?”
Este pensamento no caso de V.C. é generalizado....
Que, também na apresentação, tal nos é salientado, ela encontra-se no topo do pensamento da maior actualidade”. Não fazemos mais coisas belas, não apreciamos mais a alegria de gastar energia viva numa obra criativa, mas gastamos, esgotamos sem vergonha nem consideração energia até à última gota para produzir massas de coisas feias e inúteis.” Um texto que estaria bem no quadro das discussões sobre o produtivismo e claro as diversas opções em torno do conceito de decrescimento.
2- A estruturação do pensamento começa com o reconhecimento que o liberalismo económico (hoje defendido por alguns ditos anarquistas, lá iremos aos conceitos) é uma mentira. Hoje sabemos que conduz à concentração de empresas e de capitais, dado que não entra em conta com valores humanos ou ambientais, como defende V.C. “nem reis, nem presidentes, nem banqueiros, nem cortesões, (...) nem mercados com excedentes desperdiçados, nem crianças esfomeadas e sem nada. Não deve haver nem esplendor nem miséria, nem desperdício nem necessidade”.
Em linha com as lógicas do “Apoio Mútuo” de Kropotkine, que ela conheceu e menciona.
O pensamento de V.C. organiza-se também em crítica aos formalismos dos governos “o governo é irreal e inacessível” e aos seus pressupostos, falsamente, democráticos. A representação, a delegação por este modo desconsiderada. Tenho escrito em defesa da representação por sorteio. Nessa linha V.C. considera o voto uma arma de endireitamento, no sentido de restabelecimento do poder dominante, sempre.
3- V.C. logo no início cita Jefferson “Os nossos dirigentes tornar-se-ão corruptos e o nosso povo inconsciente. Um só fanático poderá tornar-se um tirano e os melhores homens suas vítimas” e adiante diz-nos “que país poderá preservar as suas liberdades se o povo não recordar aos seus dirigentes que conserva o espírito de resistência?”. Faz lembrar a actualidade....
Em dois capítulos V.C. define-se como anarquista e desmascara o pretenso último garante das liberdades públicos que se transforma num instrumento de dominação nas mãos dos possidentes, e estamos a referir-nos é claro ao boletim de voto....
Pequenas estórias também ilustram este capítulo como a da fuga de Kropotkine da prisão do czar ou protagonizadas por Tolstoi.
Nós evoluímos socialmente e conscientemente muito lentamente...
4- Passamos para um capítulo fundamental sobre as ideias dominantes. “Os homens fazem as circunstâncias ou as circunstâncias fazem o homem” interroga-se e diz-nos que o espírito é um agente activamente em processo e reagindo ao ambiente e transformando as circunstâncias, as tais.
Não acredita numa/na ideia dominante e lembra-me Paul Feyerabend ao criticar as visões filosóficas da ciência e a “sociedade dominada pela adoração das coisas e reconhecida como tal”.
Refere que a base de toda a acção política é o constrangimento, a obrigação de obedecer e mesmo quando o Estado protagoniza o bem (seja isso o que seja) o seu poder assenta sempre sobre a repressão, as policias, as matracas, os tribunais e as prisões.
Mas como nos diz
“ A vida não se submeterá”
“ Glória ao homem em todas as suas belas iniciativas
Pois ele é o mestre de todas as coisas
(...)
Como ervas silvestres e roseirais na torrente das coisas
são as almas batidas pelo vento”
do Hino ao Homem de Swinburne
5- Crime e castigo é o título desta conferência que obviamente nos remete para Dostoievsky onde vemos que a espiritualidade é uma fonte do pensamento de V.C. lembrando, sem a lógica católica, o pensamento de Simone Weil, na preocupação contra a ideia selvagem do castigo que é, como ela nos diz, sem sabedoria. Aqui cooptando, também, o pensamento de Tolstoi.
Refere as penas de morte de diversos acusados de crimes, anarquistas, muitos totalmente inocentes e ainda hoje recordados, bem assim como crimes violentos e os seus protagonistas, sempre enquadrando-os e não os desculpando.
6- Fundamentais, mesmo, mais até, nos dias de hoje são os 5 capítulos sobre feminismo (fiquei a saber que até ao século VI as mulheres para a Igreja não tinham alma! Vejam lá bem). A questão do patriarcado, mesmo entre o proletariado é colocada em termos avançadíssimos, o casamento e a escravatura sexual, a igualdade política (atenção não fala de sufrágio) e a liberdade individual.
Elaborações muito avançadas que constituem ainda hoje a essência do movimento pelos direitos todos.
7- Um capítulo espesso “A literatura, espelho da Humanidade”. Para V.C. esta é um espelho dessa.
Não resisto a transcrever alguns bocados que me tocaram: “Uma comunidade saturada do espírito e da linguagem científica não pode produzir grandes poemas (e estes são a base do pensamento). As pessoas dessa comunidade não poderão ser levadas à admiração e ao infinito (...) não veriam mais as árvores como gigantes mas só como descendente dos fitoplânctons. As gotas de água não seriam mais jóias de fadas mas resultado da condensação da água em certas condições atmosféricas. Os rugidos as chamas e as erupções do Etna não são mais manifestação da erupção de Titã, mas a explosão de milhões de pequenos cubos de gás. (...) O amor não é mais uma ferida causada por Cupido mas só uma manifestação do instinto de reprodução.”
Adiante pergunta-nos se não seremos “sómente seres desequilibrados prontos a precipitar-nos como um sopro de fogo sobre o nosso semelhante?”
A literatura conclui sobre a sua característica constante “a sua admirável curiosidade de ver, se ver”
8- Este magnífico livro/antologia conclui-se com uma recolha de poemas de V.C.
Todos eles me deixam prostrado. Aqui um pouco de um:
(...) “”
“- O Silêncio e a Noite terão um fim?
- Acabarão em canto e luz
E a dor extinguir-se-à em Paz
Pois a Morte morre em mim
Enquanto tu passas de ti aos outros
Que a luz te sombreie e a sombra te ilumine
Escolhe!”
E a alma em lágrimas, respondeu:
Viverei.
A esperança mesmo num quarto escuro vale mais que o desespero.””
Há outra realidade para além da realidade. E a verdade não é mentira.
9- Comecei esta nota de leitura com intenção de me introduzir numa discussão, conversa dado ser entre pessoas que se estimam, que tem animado a Ideia sobre o anarquismo e a direita. Tenho, para mim, que são totalmente contraditórios, e recordo o “Banqueiro Anarquista” de Fernando Pessoa que é o maior paradoxo, para desmentir que tal não é possível, embora seja, também, a minha leitura pessoal. É como afirmar que um comunista pode defender o capitalismo (e não refiro a título pessoal que houve ou há muitos comunistas capitalistas) como sistema. Ou um fascista ser anti-racista (e até ser negro) dado que o racismo não tem que ver só com cor de pele ou etnia religiosa ou social (judeus ou ciganos). Ou um neo-liberal defender a economia social de mercado (e até podem jurar por Adam Smith, esse sim a defendia) eles defendem a livre concorrência sem regras nem limites. Ou um cristão em nome de Cristo defender a Inquisição seja em que forma seja (até na condenação do aborto, que é o direito à vida da mulher!). Ou algum, um que seja, ecologista ser a favor da nuclear tal não é possível, essa é um risco enorme para o meio e a sociedade que nos rodeia, gera resíduos inaceitáveis e para sempre, sempre, e é totalmente contra a lógica da suficiência e autogestão social defendida como princípio pelos ecologistas e até ambientalistas (Follow the Money, costumo dizer quando leio que algum dito ecologista defende essa tecnologia). Recordo a propósito os 8 indianos cegos a tentar identificar um elefante. O elefante continuou a ser elefante. Mas cada um o identificava pelo que apalpava.
Continuemos a ser vermes.
10-Pois uma grande conversa que este livro me inspirou, mas com o tempo fui perdendo alguma capacidade de escrever sobre livros (mas nunca esqueço que uns capangas do sr. Boaventura S.S. me prometeram chegar-me a roupa ao pelo se voltasse a criticar uma das suas obnóxias obras, então no Expresso!), quando escrevemos sobre esses é sempre sobre o nosso sentir e pensamento que estamos a expôr.
Diz-nos a Bíblia, que “o sol nasce, o sol se põe e, logo, retorna” mas sabemos que é mentira, logo ou a Bíblia é mentirosa ou a palavra de Deus é falsa, eppur si muove já dizia Galileu. Somos nós (a Terra) que giramos e continuamos.
A propósito V.C. desenvolve a liberdade introduzindo Giordano Bruno como percursor desta ao criticar o dogmatismo dos textos.
Não há textos, não há palavra, nenhuma, sagrada.
E escrever é um acto solitário mas também solidário com outros pensamentos.
P.S. Chega-me já o artigo acabado a informação de uma edição, talvez, a tradução em português, que recomendo vivamente:
Escrito(s) a vermelho : antologia de textos escolhidos, 1890-1912 / Voltairine de Cleyre ; trad. Carlos Jacques... [et al.]. - Lisboa : Barricada de Livros, 2019.
Labels: Insubmissos, Livro, Vermes, Voltairine De Cleyre
Todas as palavras são relativas, todo o seu enquadramento oferece dúvidas, toda a realidade se evapora.
este que encontrei (ed. 1974) tem algumas boas pérolas e muito, muito trogloditismo....É dos melhores livros sobre vulcões que me lembre. E com inúmeras referências a reter:
1-As arribas da fajã lávica do Ouvidor, em S.Jorge
2- As Lagoas Negra, Rosa, Comprida e Funda nas Flores
3-A poça Simão Dias, S. Jorge
4-A Rocha dos Bordões, Flores
E conteúdos de grande qualidade, alguns já nossos conhecidos....
As fotos excelentes e os textos ao mesmo nível. Uma preciosidade:
Este ano tenho projecto de visitar S. Jorge e as Flores...a conferência referida em posta antrerior e dados deste livro (que tem alguns erros por aqui e por ali, é certo que não pretende ciência)
e é por de resto um livro com descobertas e muito interesse por exemplo a igreja da Fajã das Cubres, em S. Jorge ou a menção à Fajã dos Vimes, dita a primeira plantação de café da Europa ou ainda da terra de Francisco Lacerda (músico) ou o Topo.Também refere a Urzelina e André Fouqué, vulcanólogo da época.
Essas as páginas úteis sobre S.Jorge.
Já sobre as Flores ilha de águas mil, refere a " ocupação" militar francesa e os seus resíduos e o trilho desde a Ponta da Fajã até Ponta Delgada e a descrita encantadora aldeia da Fajãzinha.
Muitos outros motivos de interesse percorrem este livro de um poeta apaixonado por ilhas.
É, talvez, a minha droga favorita, sem a qual (recordo visita a países sem essa....) passo mal:
este livro, além de 2 ou 3 petites histoires, vale pelos "bonecos" alguns verdadeiramente excepcionais.E também pelas poesias, aqui e ali.
Labels: Aventura do café, café, Livro
Ontem desloquei-me à Casa dos Açores em Lisboa para assistir à apresentação deste:
e a uma culta e muito interessante conferência sobre o vulcanismo e concretamente o sistema desse de S. Jorge pelo geólogo Adriano Pimentel.Li com agrado a recolha de textos de época que é feita no livro pretexto para a dita conferência, em que, para além do relato circunstanciado dos eventos geológicos e vulcânicos temos ideia do ambiente social da época e das relações entre os principais protagonistas do poder, até com uma invulgar pequena trica com a proposta de extinção do Regimento de Milícias...
Hoje em busca de ilustração para artigo na Gazeta encontrei este:
de onde piquei o coelho!
que tem tudo a ver com o meu artigo no livro Amanecer Sin Almaraz....Labels: Almaraz, Amanecer sin Almaraz, nuclear
Estas duas estão na rua S. João da Mata, em Lisboa, quase em frente do excelente Batata Doce!
Labels: Azulejo, Pinto Coelho
Estava sentado a escrever e passou uma tremura ou melhor duas e desvaneceram-se
e vieram-me à memória duas ou três intervenções minhas enquanto vereador na C.M.L. sobre as faltas de preparação e prevenção e bem assim sobre a completa ausência de planos de contingência. Referi também problemas com o edificado, entre outros os do Bairro das Colónias. A maioria (duas de diferentes cores) respondeu metendo os pés pelas mãos que eu estava mal informado, que isto e aquilo.Inch Allah, ou oxalá que este não seja superado por outros de maior grau.....
Labels: abalos, Lisboa, Tremor de terra
Tenho tido muito espaço... além de fazer o O.I.E. https://obseribericoenergia.pt/index.php e dar alguns conselhos por aqui e ali, tento retomar a escrita do ora "Burros contra a Hegemonia", mas está com arranque difícil. E li, e candidatei-me ora a escrever uma nota de leitura sobre esta descoberta, este livro de filigrana:
Aqui trarei essa nota de leitura, em breve.
Labels: Anarquismo, pensamento libertário, Voltairine De Cleyre