insignificante
E agora, José?
A festa acabou
A luz apagou
O povo sumiu
A noite esfriou
E agora, José?
E agora, você?
Você que é sem nome
Que zomba dos outros
Você que faz versos
Que ama, protesta?
E agora, José?
Está sem mulher
Está sem discurso
Está sem carinho
Já não pode beber
Já não pode fumar
Cuspir já não pode
A noite esfriou
O dia não veio
O bonde não veio
O riso não veio
Não veio a utopia
E tudo acabou
E tudo fugiu
E tudo mofou
E agora, José?
E agora, José?
Sua doce palavra
Seu instante de febre
Sua gula e jejum
Sua biblioteca
Sua lavra de ouro
Seu terno de vidro
Sua incoerência
Seu ódio, e agora?
Com a chave na mão
Quer abrir a porta
Não existe porta
Quer morrer no mar
Mas o mar secou
Quer ir para Minas
Minas não há mais
José, e agora?
Se você gritasse
Se você gemesse
Se você tocasse
A valsa vienense
Se você dormisse
Se você cansasse
Se você morresse
Mas você não morre
Você é duro, José!
Sozinho no escuro
Qual bicho-do-mato
Sem teogonia
Sem parede nua
Para se encostar
Sem cavalo preto
Que fuja a galope
Você marcha, José!
José, para onde?
Labels: Drummond de Andrade
E agora José?
Poema extraordinário de Drummond de Andrade, num dia em que o Outono também* chegou à CPO 27 no Egipto, pese as declarações.....
https://wp.ufpel.edu.br/aulusmm/files/2016/09/JOS%C3%89.pdf
no Egipto (por raio foram parar nessa ditadura sem quaisquer direitos) decidiu-se nada e coisa nenhuma, digam eles o que quiserem.
*Por cá optimos dias de chuva juntam-se aos dias mais curtos a aumentar a depressão....
Labels: alterações climáticas, Drummond de Andrade
247
8 Outubro 19
Nuclear
As notícias sobre a fusão nuclear continuam a
ser ficção científica, pesem os enormes, mas mesmo enormes fundos, perdidos....
que só agravam a “nossa” situação!
Alterações Climáticas
Esta envia-me Luís S., divulgue-se!. Aí está:
E recordei:
um poeta genial e um poema único!
Florestas Tropicais
Mto Bem!
Livros
Estou a vender fundos de armazém, bons para
todas as ocasiões e locais....
António Eloy
Observatório Ibérico Energia (O.I.E.)
Nota
A não maioria absoluta e a eleição de uma
deputada do Livre são dois motivos de satisfação nestas eleições e para o
ambiente.
Mas os quase 46 % de abstencionistas (e hoje
os cadernos eleitorais estão quase limpos de mortos) deveriam levar os partidos
a pensar. A inexistência de círculos locais e de um corrector nacional (que
permitisse contar com todos os votos, a partir de, talvez, 2,5%) de Hondt, como
para as europeias ou as regionais na Madeira, seria uma forma de levar mais
gente a votar. Eu não voto, nestas, porque o meu voto não vale. Protesto!
Labels: Drummond de Andrade, Eleições 2019, Livros, Livros Educação Ambiental, O.I.E.
Para todos os visitantes, permanentes ou ocasionais deste INSIGNIFICANTE, com votos e desejos para 2015:
"
Passagem do ano*
O último dia do ano
não é o último dia do tempo.
Outros dias virão
e novas coxas e ventres te comunicarão o calor [da vida.
Beijarás bocas, rasgarás papéis,
farás viagens e tantas celebrações
de aniversário, formatura, promoção, glória, [doce morte com sinfonia e coral,
que o tempo ficará repleto e não ouvirás o [clamor,
os irreparáveis uivos
do lobo, na solidão.
O último dia do tempo
não é o último dia de tudo.
Fica sempre uma franja de vida
onde se sentam dois homens.
Um homem e seu contrário,
uma mulher e seu pé,
um corpo e sua memória,
um olho e seu brilho,
uma voz e seu eco,
e quem sabe até se Deus...
Recebe com simplicidade este presente do [acaso.
Mereceste viver mais um ano.
Desejarias viver sempre e esgotar a borra dos [séculos.
Teu pai morreu, teu avô também.
Em ti mesmo muita coisa já expirou, outras [espreitam a morte,
mas estás vivo. Ainda uma vez estás vivo,
e de copo na mão
esperas amanhecer.
O recurso de se embriagar.
O recurso da dança e do grito,
o recurso da bola colorida,
o recurso de Kant e da poesia,
todos eles... e nenhum resolve.
Surge a manhã de um novo ano.
As coisas estão limpas, ordenadas.
O corpo gasto renova-se em espuma.
Todos os sentidos alerta funcionam.
A boca está comendo vida.
A boca está entupida de vida.
A vida escorre da boca,
lambuza as mãos, a calçada.
A vida é gorda, oleosa, mortal, sub-reptícia.
"
* de:
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