Será, ou já foi, publicado no Gazeta da Beira (não confundir com outras Gazetas!):
A
moral e a política
“Passa um cúmulo-nimbo
O Vento sopra
Poderá chover”
Haiku anónimo
“Se algo pode correr mal, vai correr
(mesmo) mal”, essa a 1ª das conhecidas leis de Murphy.
Recordo que no gabinete do então
comissário da Expo 98, Cardoso e Cunha, estarem as leis de Murphy emolduradas
em grande evidência. Julgo que em 1993 (ou 94) fiz parte, com cerca de uma
dezena de especialistas em ambiente, de uma comissão criada para dar
orientações sobre a obra de desmantelamento das estruturas industriais e analisar
os problemas ambientais dessas.
Tivemos duas ou três reuniões, de
grande espessura, onde tudo era discutido e problematizado. Chegou-me aos
ouvidos que estávamos a criar muitos problemas e o facto é que fomos todos
dispersos, um para cada serviço (eu fui para a educação ambiental, outros para
a comunicação, outros promovidos a directores de serviço, outros para o
ministério e até houve quem fosse para as Bermudas).
Não se podia atrasar a obra com
minudências ambientais. Os lixos não foram devidamente processados, os terrenos
não foram devidamente descontaminados ou nem sequer, a obra sofreu entorses por
necessidades de construir mais, mais, mais.
E recordo que tinha assinado um
contrato em como não diria nada, sobre o que viesse a saber. Já deve ter
caducado.
Os resíduos industriais(metais pesados,
escórias militares e de petróleos e outros) foram espalhados, por aí, e nem
sempre cumprindo as condições requeridas e sem grandes controles ambientais.
Ainda se encontram, por aqui, ali e acolá.
Mas o pior, o pior mesmo, e eu que além
de educação ambiental levava os visitantes a ver a desgraça ambiental que era
aquele espaço tenho a perfeita consciência da enormidade do desastre que ali
existia, o pior é que a descontaminação dos solos, que havia sido um tema
central do grupo de trabalho acima mencionado, pois, foi escassa, ou mesmo nula.
Avisei na altura do potencial poltergeist. Mas a Expo tinha que ser em 98.
Há alguns anos na zona da escola os
cheiros vindos do solo anunciavam o inevitável, por mais betão que se coloque a
natureza, como também diz uma das leis de Murphy, “se se mexe com ela o
resultado vai ser uma falha, fatal”.
Depressa e bem não há quem diz o nosso
povo.
Mas era, minha intenção, escrever sobre alterações climáticas e a
hipocrisia dos políticos sem vergonha que temos, que dizem uma coisa e fazem
outra, o nosso ministro foi a Glasgow perorar sobre o.... lítio, que não vai
resolver nenhum problema ambiental (mais carros eléctricos para quê? Se não
substituem os actuais sequer?) e anunciar num país, um país rural e esvaziado,
mas com gente que lhe quer, nele vive e trabalha, pois foi anunciar esse país
pejado de minas, minas, minas, a desertificar mais, a contaminar mais, a
destruir mais, uma autêntica bazuca!.
Temos que dar uma volta a isto, temos
que agir, a nível local, organizando resistências, fazendo e acontecendo contra
a lógica totalitária do crescimento, do mais, do mais o quê? Intervindo e
procurando alterar um sistema político anquilosado, sobre as autarquias tenho um livro em colaboração com
Tomaz Albuquerque #O Clientelismo, doença infantil da democracia#, e sobre o
sistema eleitoral nacional também temos muito escrito, do método de Hondt
distorcido, aos muitos milhares de votos para nada, aos círculos imperfeitos à
representação nula.
Temos um país vaziado, sem
representação.....donde as minas e donde as plantações industriais e donde a
destruição da continuidade, desse país que resiste. Nós. Continuamos.
https://obseribericoenergia.pt/