insignificante
Thursday, January 06, 2022
 

 Está no prelo mais um número da Ideia, revista em que colaborei nalguns dos primeiros números e que agora a convite do novo, e também do ex-director,  os meus amigos António Cândido Franco, agora e João Freire antes, escrevi uma prosa, nos idos de Fevereiro passado.

A revista, de pensamento libertário, tem grande espessura e muitos artigos que merecem uma leitura atenta, como só no papel se pode fazer.

Aqui trago, todavia, o meu rascunho, que julgo que teve meia dúzia de alterações e correcções, na edição em papel, com a minha concordância.

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Uma Ideia sobre o pensamento anarquista

 

1-A ecologia política não é uma ideologia mas uma forma de estruturar pensamento, organizar lógicas económicas, defender a solidariedade social e promover novas opções culturais e antropológicas.

É desde logo crítica de todos os dogmatismos, até  colocar em causa as suas próprias acções, e entre essas o cientificismo, os discursos ideológicos, comunistas, liberais ou conservadores, ou alguns dos seus matizes, socialismo, fascismo, e as suas decorrências o racismo e o machismo, assim como as fantasmagorias a elas ligadas.

Tendo passado por muitos passados por várias vezes bordejei a “Ideia”, conheci e tive reuniões fraternas com Emídio Santana e participei numa das poucas manifestações genuinamente anarquistas, depois do fuzilamento dos últimos anti-fascistas, pouco antes da morte de Franco.

Li muitos teóricos anarquistas, que não gostam desse epíteto e preferem o de libertário. Gosto particularmente de Murray Boochin, mas outros tantos outros que não são reconhecidos como tal, mas são de facto libertários, de que destaco regularmente Cornelius Castoriadis.

Tenho as maiores dúvidas em relação ao anarquismo enquanto ideologia, essas são instrumentos de luta e conquista de, do poder, e como sabemos, embora a revolução espanhola nos tenha dado ministros da C.N.T./ Federação Anarquista Ibérica, tal desiderato é marginal ou mesmo recusado por esse (anarquismo) enquanto estrutura de pensamento, aliás houve diversas cisões com, sobre, essa situação.

A anarquismo, prefiro, pois, o conceito libertário que é um ponto de chegada e partida e como tal um caminho. E como nos dizia o grande poeta ibérico António Machado “ Caminhante não há caminho”, que com a Ideia continuemos a caminhar.

 

2- Costumo considerar-me como papel mata-borrão, hoje esquecido mas para quem como eu aprendeu a escrever com uma caneta bico de pato que molhava no tinteiro da mesa que dividia com um colega, esse era muito importante. Leio, interpreto e absorvo, aproveito. Tenho dificuldade em integrar em categorias, em gavetas pensamentos e até acções e as suas motivações, todas têm que ser enquadradas no tempo e no modo, para aqui mencionar uma revista importante e que quando a conheci já tinha caído no pior dos fanatismos. Há fanatismos por todos os lados, quando não se tolera a diferença de pensamento e logo de intervenção em nome de uma doutrina que é, sempre, sagrada. O próprio anarquismo caiu não poucas vezes nessas lógicas e diatribes, recordo as querelas entre a luta armada (bombas e atentados) e a não violência e o pacifismo, que aliás tem um exemplo histórico em Portugal.  Costumo definir-me como não violento, e nem preciso de referir o meu acordo com a escolha de Gandhi entre um violento e um cobarde, mas é uma opção cheia de dificuldades, por via dos encalhos que cada dia mais se vão colocando.

Defendo as lógicas da ruralidade e quantas vezes tenho que detalhar que a convivialidade em torno da matança do porco é em tudo um momento de puro anarquismo, para não referir o corte de cabeça da galinha para a cabidela rural, ou até outros momentos intimamente articulados com a ruralidade.

E, quem me conhece sabe-o, não me perco com as palavras e dizem-me por vezes até alguma “grosseria” ou agressividade que coloco nos discursos e discussões, sendo que já não será a 1ª nem a última que depois de discussões férreas saímos das reuniões em confraternização e abraços.

 

3-   Diz-me o João Freire dos temas deste número da Ideia, já referi o meu apreço por Boochin,  e de Kropotkin, cujos textos ignoro, foi bem querido por Lenine, que até permitiu o seu funeral com uma multidão, no que terá sido o último momento anarquista da ditadura comunista, mas sei que é muito considerado pessoalmente e pelos seus textos. Já a Comuna de Paris, é um momento histórico em que as análises de Marx e Bakunin nos dão momentos de iluminação das suas convergências e também divergências e que continua nos dias de hoje a ser um momento de polémicas e diferentes leituras. Parabéns pelas escolhas e sei que serão abordadas com as pinças que conheço da Ideia.

A história é, são momentos que hoje analisamos e modificamos e que articulamos que os instrumentos de conhecimento que cada dia nos são mais disponibilizados.

 

4- Nem sempre a luta pelos direitos civis, na sua globalidade, tem encontrado a convergência do pensamento anarquista, que não do libertário, que não é o mesmo. E será certamente tema central deste número Louise Michel, pelo seu papel na Comuna e a continuação do seu pensamento e acção política, mas é sobre a divergência entre feminismo e anarquismo que encontro matéria para registo. Embora certamente  haja muitos conjuntos que se intersectam e não possamos tomar a nuvem por Juno cruzei-me com muitos expoentes anarquistas que eram contra a contracepção (por ser química) e contra a interrupção voluntária da gravidez, por razões “religiosas”, sem perceber que os direitos das mulheres passam pela sua autonomia sexual e pessoal e que não se pode ter outro limite no direito que o da sociedade (que se aplica também no caso da eutanásia ou morte assistida) sendo o do individuo, devendo ser, soberano se não existem quadros de conflitualidade. O mesmo em relação ás drogas, que deveriam ser todas legalizadas. Infelizmente também nestas áreas vemos, conheço muita moral anarquista contra o direito individual e também o social que esse representa.

Também vem a talhe de foice a oposição, e não me digam que é por contestar os mecanismos legais e institucionais do Estado, de defensores do anarquismo ao casamento entre pessoas do mesmo sexo ou a práticas que relevam do direito individual nessa área.

Mas cada anarquista é um partido, cada anarquista é o seu deus, cada um defende a sua ideia. Nada me move contra tal, a não ser o assumir de um (em) colectivo que desde logo releva todas essas discrepâncias individuais.

 

5- Não era, que se saiba, anarquista mas Immanuel Kant deixou-nos um texto “A Paz Perpétua: um Esboço Filosófico” , em 1795, que é base para algum pensamento dessa corrente político-filosófica, o pensamento federalista, desde logo contra o Estado-Nação e por uma organização política ainda hoje da maior actualidade.

Sou um iberista (não confundir com os nacionalistas defensores da nau ibérica), cultural (sou meio raiano) e político, defendo uma Europa Federal, com Parlamento com poderes e órgãos representativos resultantes da vontade popular, e desde logo a Federação Anarquista Ibérica, nunca bem estruturada em termos sequer teóricos, mas que induzia num conceito supra-nacional, muito apropriado nos tempos da República Espanhola (e que aliás levou também ao pânico de Salazar pela eventual absorção de Portugal pelas hordas franquistas) onde as diferentes entidades constitutivas de Espanha tiveram graus diversos de autonomia (e essas nunca quiseram senão isso! Ao contrário do que nacionalismos pacóvios hoje pretendem).

Hoje, continuo a defender a uma federação republicana ibérica, que num quadro federal europeu tivesse capacidade de desenvolver outros valores além da economia.

Também nesse quadro vejo com simpatia a dissolução das forças armadas nacionais e a criação de forças europeias dedicadas à defesa do ambiente e do património, assim como da protecção dos valores naturais e culturais.

No caminho para uma paz, perpétua....

 

6- Mas vivemos tempos complicados, do ponto de vista da saúde pública, do ponto de vista do sistema sanitário, profiláctico ou curativo. E também aqui o pensamento ligado a esta área tem muitas contradições e conflitos.

Conto uma história ilustrativa: contraí o Covid, sem que tenha desrespeitado nenhuma das medidas sanitárias, esse não me atingiu o pulmão, limitou-se a frios devastadores, arrepios trepidantes e falta de apetite, além de febre que foi o detector do bicho. Mas pior, muito pior foram as sequelas, comecei a ter dores lancinantes nas pernas (afinal era só uma e a simpatia da outra) e após alguns dias vou ao meu osteopata, que depois de me dar uma massagem me disse “envia, já uma foto das tuas pernas ao teu médico”, que na hora me manda fazer um doppler. A médica que mo fez, passadas poucas horas disse-me “vai já ao centro de saúde porque arriscas uma embolia pulmonar”, e o meu médico e amigo logo informado mandou-me tomar umas injecções, na hora comecei com essas. Passados 20 dias estou já noutra terapia médica, já ando e as dores, da trombose venosa, transformaram-se em moinha.

Esta história a propósito do anti-cientificismo que grassa muito no meio alternativo/anarquista. A Covid não existe, as vacinas são uma forma de nos chipar, os médicos estão ao serviço do “Vil Gaitas”, etc.

Felizmente que mesmo nesse há quem dê vacinas ás crianças para evitar a varíola ou a polio e outros bacilos e vírus e até o “santo” Ivan Ilitch, que não era anarquista mas um, talvez dos melhores escribas sobre a “Némesis médica”, a vingança divina, não era contra tratamentos e paliativos, adequados.

O anti-cientificismo foi também um marco dos movimentos ecologistas, mas num quadro especifico, de luta contra a interferência dos financiamentos militares para fins científicos, no momento pós 68. Hoje, infelizmente os capitais financeiros já não têm origem, nem destino que se possa tracejar, pelo que hoje só espirar é que escapa ao controle (se não inventarem outro chip, eh, eh, eh).

 

7- Como os sete pecados mortais de outra religião, doutrina, forma de poder em estrutura de pensamento ritualizado, com os seus diversos artefactos e procedimentos, aqui deixei 7 esconjuros, ou alguns dirão provocações, para uma corrente política da minha simpatia (nunca esquecerei, ainda nos tempos pós franquistas, 1976, um camarada da C.N.T. que me recolheu para passar a noite que teria ocorrido na rua, perto da Estação de Chamartin e uma noite de épica!).

Hoje o desconhecimento em que mergulhados na ditas redes vivemos, a ignorância (há um programa americano de reconstrução de casas, numa televisão. Sabem o que nunca, nunca há nessas? Pois isto que terão na mão. Nem um livro!) a ignorância abissal e o bolsar balofo que vemos nas t.v.s e que se vai acumulando, tornam cada vez mais necessária a discussão, o debate e o confronto. O que fez o anarquismo.

Como dizia Bakunin:

“Era uma festa sem começo e sem fim; eu via todo o mundo e não via ninguém, pois cada indivíduo se perdia na multidão incontável e errante; eu falava com todo mundo sem lembrar nem das minhas palavras nem das dos outros, pois a atenção estava absorvida a cada passo por acontecimentos novos, por notícias inesperadas.”

Que a festa continue.

 

Nota final: Não referi, mas não por esquecimento, mas para respeitar o nº de palavras propostas, outras e importantes discussões, também neste campo, sobre municipalismo/comunalismo e organização social das comunidades, tema fascinante que levou Boochin a afastar-se do anarquismo, no quadro de polémicas que aqui também afloro, no final da sua vida

 

António Eloy

https://obseribericoenergia.pt/index.php

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Monday, March 29, 2021
 

 Hoje enviei mais uns papeis para a S.S., onde desde Agosto do ano passado iniciei o calvário para obter um magro subsídio de desemprego, portanto, ora completados 8 meses, com diversas peripécias que até tiveram que merecer conselho e intervenção de advogado por ignorância manifesta dos serviços. Mas já lá vão 8 meses, vamos ver se se lembram de ressarcir o contribuinte já com mais de 40 anos de pagamentos....à mesma.

Hoje também enviei um artigo para a revista Ideia, revista de pensamento anarquista ora dirigida por meu velho camarada Cândido Franco, que sucede a João Freire. Nos anos 70 ou 80 publicava, com alguma regularidade artigos nessa, que julgo que saía 4 vezes por ano. Agora anual é a convite dos ex-e actual director que escrevo uma prosa heterodoxa. 

A seu tempo aqui a trarei.....

https://aideiablog.wordpress.com

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civetta.buho@gmail.com

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