Morreu o D.D.
O efeito dos raios
gama nas Margaridas, na morte de Delgado Domingos
O título desse
excelente, e esquecido filme de Paul Newman, parece apropriado para escrever
sobre José Joaquim Delgado Domingos, o D.D., como carinhosamente o conhecíamos.
A sua palavra, o
seu conhecimento, e também o seu feitio de antes quebrar que torcer, faziam
crescer ideias, emoções e contestações ao que não era certo.
Conhecemos o D.D.
nos anos 70. Nessa altura projectava-se uma central nuclear, para o que depois
viríamos a saber era uma falha sísmica, uma nuclear para Ferral, lá para
Peniche.
O actual presidente
da Câmara, aluno do Técnico, a Gazeta das Caldas, alguns, poucos que éramos,
ecologistas, contra o pensamento dominante (ainda vivíamos no esplendor de uma
revolução técnica e científica sem alma) encontraram o Prof. Delgado Domingos
(e alguns outros) e com ele tecemos uma oposição, desenhámos uma alternativa a
essa estrutura que como diz a canção “podia ser mortal”.
Recordamos D.D., o Delgado Domingos, entre a população a
contestar e embaraçar os “especialistas” da então electricidade de Portugal,
que em papel couché louvava as centrais. Recordamos os seus artigos
implacáveis, nos poucos jornais que publicavam, e os seus livros que encheram a
nossa oposição “Inteligência ou Subserviência Nacional", 2 Volumes, Porto,
Edições Afrontamento, 1978.
J.J. Delgado Domingos voltou a Ferrel, quando se
comemorou o 30º aniversário desta luta, mas desde essa altura, seja no Técnico
onde iniciou gerações à lógica da Termodinâmica e nos falava longamente da
Entropia e da lógica desta no quadro da economia e sociedade, seja na acção
cívica e critica a um modelo gasto de desenvolvimento, energívoro e delapidador
de recursos esteve sempre presente.
Nos Planos Energéticos Nacionais, onde se chegou a prever
13 centrais nucleares para Portugal foi sempre uma voz esclarecida e
esclarecedora. A sua voz e conhecimento calaram alguns ministros da Indústria!
Empenhado civicamente foi cabeça de lista nas eleições
europeias, nos anos 90, no que na altura era um partido ecologista, o MPT, e
sem populismos, com um programa europeísta e de intransigência democrática
deixou registo. A Terra hoje já não é o que é e os populismos contra os quais
sempre se bateu dominam, hoje.
Nos últimos anos continuou a sua luta de sempre, aliando
as renováveis e a eficiência energética ao seu empenho permanente (ainda iria
connosco algumas vezes a Almaraz, manifestar-se pelo encerramento destas
unidades nucleares!). Desenvolveu um sistema de monitorização da velocidade do
vento, para prever as localizações e oportunidade de desenvolvimento de
aerogeradores e assumiu a Presidência da Agencia de Energia Lisboa E-Nova, onde
com uma dinâmica equipa procurou implementar alguns sistemas de eficiência na
cidade e recuperação da “entropia”.
Morreu agora aos 79 anos, um dos raios que iluminava as nossas Margaridas.
Os raios de luz continuarão sempre a dar-nos a melhor
energia.
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